Petróleo dispara com tensão no Mar Vermelho; entenda a importância do estreito de Bab el-Mandeb
Passagem entre o Iêmen e o Chifre da África é uma das principais rotas marítimas de energia e ganhou ainda mais relevância após a redução do fluxo pelo estreito de Ormuz
10/09/2026 17:21
Por Prime Rádio - A escalada das tensões no Oriente Médio voltou a pressionar o mercado internacional de petróleo e colocou o estreito de Bab el-Mandeb no centro das preocupações sobre o transporte global de energia. A passagem marítima conecta o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e ao Mar Arábico, funcionando como uma ligação estratégica entre o Oceano Índico, o Canal de Suez e os mercados europeus.

O estreito fica entre o Iêmen, na Península Arábica, e Djibuti e Eritreia, no continente africano. Apesar de relativamente estreito, sua localização faz com que seja um dos chamados "pontos de estrangulamento" do comércio mundial de petróleo — áreas em que uma interrupção pode obrigar navios a percorrer milhares de quilômetros adicionais.
Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), cerca de 4,2 milhões de barris por dia de petróleo bruto e derivados passaram pelo Bab el-Mandeb no primeiro semestre de 2025. O volume representou aproximadamente metade do registrado em 2023, reflexo dos ataques de rebeldes houthis contra navios comerciais no Mar Vermelho desde o fim de 2023.
A importância da passagem aumentou com as dificuldades enfrentadas por outras rotas de exportação do Golfo Pérsico. O estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, é uma das principais vias mundiais para o transporte de petróleo. Com a redução do fluxo pela região durante o atual conflito, países produtores passaram a depender mais de alternativas terrestres e marítimas.
A Arábia Saudita é particularmente relevante nesse cenário. O país possui terminais no Mar Vermelho e uma extensa infraestrutura que permite transportar petróleo do leste do território para a costa oeste, evitando parcialmente o estreito de Ormuz. Essa estrutura inclui o oleoduto East-West, que liga áreas produtoras no leste saudita ao porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
A EIA aponta que os ataques no Mar Vermelho e as interrupções relacionadas ao Bab el-Mandeb fizeram os volumes de petróleo saudita que passavam pelo estreito cair mais de 50% entre 2023 e 2024. Ao mesmo tempo, a Arábia Saudita ampliou o uso do oleoduto East-West e de terminais no Mar Vermelho para adaptar suas exportações.
Por que o Bab el-Mandeb é tão importante?
O estreito é a entrada meridional do Mar Vermelho. Para navios que seguem do Golfo de Áden em direção ao Canal de Suez, a passagem é praticamente obrigatória. O Canal de Suez, por sua vez, permite que embarcações entre o Oceano Índico e a Europa evitem a longa viagem ao redor do extremo sul da África.
Essa conexão é especialmente importante para o setor de energia. Antes da intensificação dos ataques no Mar Vermelho, grande parte das cargas de petróleo e gás natural provenientes do Golfo Pérsico com destino à Europa passava pelo estreito de Ormuz, pelo Bab el-Mandeb e, posteriormente, pelo Canal de Suez ou pelo sistema de oleodutos SUMED, no Egito.
Quando a passagem fica ameaçada, os operadores podem optar por desviar os navios pelo Cabo da Boa Esperança, no extremo sul da África. A alternativa é consideravelmente mais longa e aumenta o consumo de combustível, o tempo de viagem, os custos de frete e os riscos logísticos.
A EIA destaca que os ataques no Mar Vermelho já levaram embarcações a evitar o Bab el-Mandeb e adotar a rota pelo Cabo da Boa Esperança. Embora essa alternativa mantenha o comércio funcionando, ela reduz a eficiência do transporte e pode elevar os custos associados à entrega do petróleo.
Arábia Saudita busca alternativas
A posição geográfica da Arábia Saudita explica por que Bab el-Mandeb ganhou importância adicional no atual cenário. O país possui produção petrolífera concentrada principalmente no leste, mas conta com infraestrutura para levar parte dessa produção até a costa do Mar Vermelho.
Com a maior dificuldade de utilização do estreito de Ormuz, essa estrutura se tornou uma alternativa para manter as exportações. Dados recentes da EIA indicam, contudo, que a segurança da rota pelo Mar Vermelho passou a representar uma limitação importante.
Segundo a agência norte-americana, as exportações de petróleo que saíram do porto saudita de Yanbu em agosto de 2026 ficaram aproximadamente pela metade do nível registrado em julho. Como resposta, a Arábia Saudita aumentou os embarques pelo Canal de Suez, uma opção mais longa e mais cara para determinados destinos asiáticos.
Impacto sobre o preço do petróleo
A preocupação dos mercados não está apenas na quantidade de petróleo que efetivamente deixa de ser transportada. A possibilidade de interrupções também influencia os preços, porque investidores e empresas incorporam ao valor do barril o risco de uma redução futura da oferta.
O petróleo Brent ultrapassou US$ 100 por barril nos últimos dias, em meio à combinação de fatores relacionados ao conflito no Oriente Médio, às dificuldades de transporte e às incertezas sobre a oferta mundial. A EIA registrou aumento da volatilidade e apontou que as ameaças às exportações sauditas pelo Bab el-Mandeb contribuíram para a pressão sobre os preços.
Dados divulgados pela Reuters nesta quinta-feira (10) também apontam que o Bab el-Mandeb é uma das principais rotas marítimas entre a Ásia e a Europa e que aproximadamente 7% da produção mundial de petróleo passa pela região. A agência ressalta que uma interrupção significativa poderia provocar novos desvios de navios, aumento dos custos de transporte e maior pressão sobre os mercados de energia.
O estreito, portanto, não precisa ser completamente fechado para provocar efeitos econômicos. A simples elevação do risco para navios-tanque pode ser suficiente para aumentar seguros, fretes e tempo de transporte, além de levar empresas a escolher rotas alternativas.
Um ponto estratégico em meio à guerra
A localização do Bab el-Mandeb também confere ao estreito importância militar e geopolítica. O conflito no Iêmen envolve os houthis, grupo que mantém vínculos com o Irã, e forças alinhadas ao governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita.
Nesta quinta-feira (10), os houthis assumiram o controle da cidade portuária de Mocha, localizada no litoral do Mar Vermelho e próxima ao Bab el-Mandeb. A tomada da cidade aumentou as preocupações sobre a segurança da navegação na região. A Associated Press informou que o avanço representa uma das maiores conquistas territoriais do grupo desde a trégua de 2022 e pode ampliar a capacidade dos houthis de pressionar as rotas marítimas.
A evolução do conflito passou, assim, a afetar diretamente uma infraestrutura que ultrapassa os interesses dos países envolvidos. Qualquer interrupção prolongada no Bab el-Mandeb pode repercutir no transporte de petróleo, nos custos de frete e na duração das viagens entre produtores do Oriente Médio e consumidores na Europa e em outras regiões.
Enquanto a Arábia Saudita tenta diversificar as rotas de exportação, o mercado acompanha a situação no Mar Vermelho como um dos principais fatores de risco para a oferta global de petróleo. A capacidade de utilizar rotas alternativas existe, mas elas são mais demoradas, mais caras e, em alguns casos, possuem limitações de capacidade.

Fontes utilizadas: U.S. Energy Information Administration (EIA) — World Oil Transit Chokepoints; Reuters — Why is the Bab el-Mandeb Strait so important?; Associated Press — Houthis take strategic port city near Bab el-Mandeb; EIA — Short-Term Energy Outlook.
