“Cimento líquido”: onda de inundação no Nepal arrasta rochas, veículos e deixa mortos também na Índia
Colapso de uma geleira provocou uma avalanche de gelo e rochas que desencadeou uma enxurrada de lama e água; três corpos foram encontrados no rio Gandak, em território indiano
27/08/2026 15:42
Por Prime Rádio - Uma das mais graves inundações já registradas na região do Himalaia atingiu o Nepal e áreas do Tibete chinês na quarta-feira (26), depois do colapso de uma parte de uma geleira próxima ao pico Langtang Lirung. O desabamento desencadeou uma avalanche de gelo e rochas que atingiu o vale e provocou uma poderosa corrente de água carregada de sedimentos, pedras e detritos.

Segundo uma análise publicada pela Reuters, a massa de gelo e rocha percorreu mais de 20 quilômetros e atingiu uma velocidade estimada em cerca de 50 metros por segundo, o equivalente a aproximadamente 180 km/h. A corrente atingiu o porto de Gyirong, no Tibete, e posteriormente avançou pelos vales do Nepal, destruindo estradas, pontes, instalações de energia e construções.
A força da enxurrada foi ampliada pela quantidade de material transportado. Além da água, a corrente carregava gelo, rochas e sedimentos, formando um fluxo de detritos de alta velocidade. O hidrologista Hatim Sharif, da Universidade do Texas em San Antonio, comparou a mistura a “cimento líquido” e afirmou que, diante da velocidade do material, tentar fugir correndo ou de veículo seria pouco eficaz. Segundo ele, em uma situação desse tipo, alcançar um ponto elevado seria uma das alternativas de sobrevivência.
A dimensão do fenômeno também foi registrada pelos efeitos rio abaixo. De acordo com o International Centre for Integrated Mountain Development (ICIMOD), o nível do rio Trishuli chegou a subir até nove metros em aproximadamente 30 minutos. A corrente percorreu mais de 100 quilômetros, alterando canais fluviais próximos à fronteira com a Índia.
As primeiras informações chegaram a apontar um terremoto como possível causa do desastre. A avaliação posterior do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), entretanto, indicou que o evento sísmico registrado na região foi produzido pelo próprio colapso glacial e pelo fluxo de detritos. A análise de imagens de satélite também mostrou que uma grande porção da geleira próxima ao Langtang Lirung havia se desprendido entre imagens feitas antes e depois do desastre.
Ainda não está determinado o que provocou o colapso da geleira. Especialistas consultados pela Reuters afirmam que o aquecimento do clima pode contribuir para a instabilidade de gelo e rochas nas regiões de alta montanha, mas ressaltam que não é possível atribuir diretamente o desastre específico às mudanças climáticas sem estudos adicionais.
Corpos são encontrados na Índia
Os efeitos da inundação ultrapassaram a fronteira do Nepal. Na quinta-feira (27), três corpos foram encontrados no rio Gandak, no distrito de Maharajganj, no estado indiano de Uttar Pradesh. Segundo autoridades locais, duas das vítimas eram mulheres.
Os agentes da Sashastra Seema Bal (SSB), força responsável pela vigilância da fronteira, localizaram os corpos enquanto patrulhavam a região. Eles foram retirados do rio com o auxílio de uma embarcação e encaminhados ao necrotério do distrito. As autoridades ainda trabalhavam para identificar as vítimas e estabelecer contato com familiares no Nepal.
De acordo com as autoridades indianas, os corpos provavelmente foram carregados pela correnteza desde o Nepal. A distância percorrida teria chegado a aproximadamente 150 quilômetros até o território de Uttar Pradesh. Equipes da Defesa Civil e da Força Nacional de Resposta a Desastres (NDRF) também foram mobilizadas para monitorar os rios na região fronteiriça.
Resgates continuam
As operações de busca e salvamento permanecem em andamento no Nepal e no Tibete. A destruição de estradas, pontes e linhas de energia dificulta o acesso a algumas das áreas mais afetadas, enquanto helicópteros são utilizados para transportar sobreviventes e suprimentos.
A Reuters informou que mais de 5 mil integrantes das forças de segurança nepalesas haviam sido mobilizados nas operações de resgate e que 125 pessoas tinham sido retiradas das áreas afetadas até quinta-feira. Entre os desaparecidos estão cidadãos estrangeiros que estavam no Nepal em viagens turísticas e peregrinações com destino ao monte Kailash, no Tibete.
O desastre também levou autoridades indianas a emitirem alertas para áreas localizadas rio abaixo. No estado de Bihar, milhares de pessoas foram retiradas de áreas consideradas vulneráveis após os alertas de inundação.
As autoridades ainda avaliam a possibilidade de novos episódios de inundação. Segundo especialistas citados pela Reuters, dois lagos formados após bloqueios nas proximidades da fronteira representam uma preocupação adicional caso suas águas avancem sobre os rios da região.

Fontes: Reuters, How a glacier collapse triggered a deadly landslide and flooding along the Nepal-China border; Reuters, What triggered the catastrophic flood on the Nepal-Tibet border?; The New Indian Express, informações da Press Trust of India sobre os três corpos encontrados em Uttar Pradesh; AFP/Al Jazeera, análise sobre o fluxo de lama e água comparado a “cimento líquido”.
