Citado em nova investigação, ex-comandante da PM já havia sido alvo de apuração sobre elo entre policiais e empresa ligada ao PCC
José Augusto Coutinho é mencionado em apuração sobre operadores financeiros da facção e em inquérito da Corregedoria sobre a Transwolff
21/07/2026 12:27
O ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel José Augusto Coutinho, voltou a ser citado em uma investigação que envolve o Primeiro Comando da Capital (PCC). Desta vez, o nome do oficial aparece na decisão que embasou a Operação Janus, realizada nesta terça-feira pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) contra uma suposta rede de operadores financeiros responsável por movimentar recursos da facção.

Segundo o documento obtido pelo GLOBO, investigadores apontam que integrantes do grupo mantinham relação próxima com policiais civis e militares e fazem referência ao então comandante da Rota, além dos coronéis Pereira Martins e "Patrício". A decisão, no entanto, não atribui ao ex-comandante participação direta nos crimes investigados nem o inclui entre os alvos da operação.
A menção ocorre em meio a apuração sensível: um inquérito da Corregedoria da Polícia Militar que investiga policiais suspeitos de prestar segurança privada à Transwolff, empresa de ônibus apontada pelo Ministério Público como instrumento de lavagem de dinheiro do PCC.
Como revelou O GLOBO, um dos investigados nesse caso, o sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, afirmou em depoimento que Coutinho, à época comandante da Rota, tentou convencê-lo a permanecer na unidade mesmo após tomar conhecimento de que havia policiais realizando "bico" para a empresa. Em um dos trechos do depoimento prestado à Corregedoria, Romano afirma que Coutinho teria reconhecido a existência de irregularidades.
"Meu irmão faz bico até hoje. Meu pai sustentou a gente fazendo bico. A gente sabe que as coisas estão difíceis. Porém, pelo que está aqui, tem bandido fazendo bico lá", teria dito Coutinho, segundo o policial.
O ex-comandante também foi citado em outra investigação conduzida pela Corregedoria, que apura um suposto vazamento de informações da Operação Sharks, realizada em 2020, em favor de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, apontado como principal líder do PCC fora dos presídios.
Coutinho deixou oficialmente o comando-geral da PM em abril, após solicitar sua transferência para a reserva. Em seu lugar, assumiu a coronel Glauce Anselmo Cavalli, primeira mulher a chefiar a corporação em quase dois séculos de existência.
Procurado anteriormente pelo GLOBO, o escritório Fernando José da Costa Advogados, responsável pela defesa de Coutinho, afirmou que o coronel é um oficial "de absoluta idoneidade", com 34 anos de carreira, e que não teve acesso aos autos das investigações. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também saiu em defesa do ex-comandante ao afirmar que sua ida para a reserva não teve relação com qualquer apuração em curso.
— O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Ele não tem nada a ver com esse negócio — disse o governador na ocasião.
O GLOBO tenta contato com a defesa do oficial, o espaço segue aberto.

Por Matheus de Souza e Aline Ribeiro — São Paulo
