Com Petrobras, Exército desenvolve tecnologia de fibra de carbono para equipar armamentos nacionais
O programa já acumula mais de duas décadas de pesquisas e gerou três patentes registradas no Brasil e no exterior, com colaboração contínua entre o CTEx e o Cenpes/Petrobras desde 2003
25/05/2026 17:00
OCentro Tecnológico do Exército brasileiro quer viabilizar a produção nacional de uma fibra de carbono desenvolvida a partir de piche de petróleo, tecnologia considerada crítica para aplicações nos setores de Defesa, aeroespacial, energético e industrial.

A iniciativa é fruto de uma parceria com a Petrobras e recebe financiamento da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), com o objetivo de reduzir a dependência brasileira de materiais avançados importados e criar uma cadeia nacional de produção de compósitos estratégicos.
A fibra de carbono, material de alto desempenho produzido a partir da carbonização controlada de compostos ricos em carbono, é ao mesmo tempo leve e extremamente resistente, o que permite sua aplicação em componentes de satélites, aeronaves, foguetes e veículos militares diversos, além de turbinas eólicas e automóveis.
A principal vantagem do material é combinar alta resistência mecânica e térmica a um baixo peso, o que permite o desenvolvimento de equipamentos mais leves, com maior mobilidade operacional, mas ainda eficientes e resistentes.
A maior parte da fibra de carbono produzida globalmente utiliza como matéria-prima o PAN (poliacrilonitrila), um polímero sintético relativamente caro e cuja cadeia produtiva é dominada por poucos países. Já o projeto brasileiro aposta em uma rota alternativa, baseada no piche de petróleo, um derivado do refino petroquímico.
O uso do piche reduz significativamente os custos de produção e permite aproveitar subprodutos da indústria petroquímica, contexto em que entra a Petrobras.
Apesar de contar com uma das maiores indústrias aeronáuticas do mundo, liderada pela Embraer, o Brasil ainda depende historicamente da importação de fibras e compósitos avançados, produzidos principalmente por Estados Unidos, Japão, Alemanha e China, o que gera restrições comerciais e potenciais gargalos de acesso.
Segundo a Estratégia Nacional de Defesa, o país considera prioritário o domínio de tecnologias críticas relacionadas a materiais especiais, guerra eletrônica e sistemas autônomos, vistas como essenciais para ampliar a autonomia industrial brasileira.
O CTEx avalia múltiplas aplicações militares para a nova fibra de carbono nacional, inclusive em drones militares, componentes cruciais dos novos modelos de guerra moderna e alvo da corrida tecnológica militar entre as principais potências beligerantes do mundo.
Embora o foco inicial seja estratégico-militar, o projeto também tem potencial de aplicação em diversos setores civis, segundo o Exército. Entre as possibilidades estão os setores de geração de energia eólica, aeronáutica, construção civil e indústria automotiva.
O projeto ainda está em fase de desenvolvimento tecnológico e escalonamento pré-industrial e, segundo informações do centro de pesquisa, já superou a etapa puramente conceitual e laboratorial inicial.
Agora, entra em um estágio intermediário de maturação tecnológica, dividido em quatro frentes principais: produção do piche precursor, obtenção das fibras experimentais, aprimoramento laboratorial das propriedades do material e, por fim, ampliação da escala produtiva.
O programa já acumula mais de duas décadas de pesquisas e gerou três patentes registradas no Brasil e no exterior, com colaboração contínua entre o CTEx e o Cenpes/Petrobras desde 2003.
Até 2021, o CTEx possuía duas patentes concedidas na área de produção de piche de petróleo em cotitularidade com a Petrobras, além de seis pedidos de patente relacionados a materiais avançados.
Em 2022, o projeto recebeu cerca de R$ 30 milhões em recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para avançar justamente na etapa de ampliação de escala.
Por: Anne Silva
